Antecipar é viver antes da vida?

Vivemos e sofremos por antecipação, vamos colecionando fotografias do futuro. Mas, quando o vivemos, este sabe-nos a pouco, tem menos intensidade do que quando o imaginámos. É, não raras vezes, déjà vécu. Fazemos listas de tarefas, da semana, cronogramas dos meses, antecipamos um ano inteiro numa ânsia de conseguirmos encaixar todas as possibilidades num calendário. Sonhamos com as férias, o novo emprego, a casa que vamos comprar, o carro. Estamos, quase permanentemente, com um passo à frente. Mais do que desejar, vivemos o que ainda não aconteceu e, assim, nunca vivemos mesmo.

Não nos podemos enredar no artifício de viver antes da vida acontecer. São poucos os momentos em que estamos em sintonia com a natureza, com o outro, connosco próprios. Talvez, por vezes e num estado de mindfulness, o consigamos por alguns segundos, raramente.

Uma pessoa ansiosa, sofre por antecipação. Se está deprimida, não consegue perspetivar o futuro e, se o faz, vê tudo negro, negativo, um beco sem saída.

Aquilo que se antecipa é, habitualmente, mais dramático, mais intenso do que a realidade vivenciada. Para o bem e para o mal. A experiência dos afetos, da descoberta de uma relação, é das poucas vivências mais fortes do que a antecipação. Mas, até aí, a idealização do outro, a fantasia, são porventura mais intensos. E, mais uma vez, a realidade torna-se poeira entre os dedos. Nas sociedades que desenhámos, antecipámos tudo exceto o presente que temos de viver. Esquecemo-nos que o futuro é mesmo só uma consequência do seu passado, e do que hoje é o presente em que não reparamos.

Vamos procurar viver, em plenitude, o aqui e agora. O futuro virá sempre e, quando ele chegar, não vale a pena lamentar o presente que não se viveu.

Maria João Heitor
Médica Psiquiatra

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