O impacto da rejeição

A rejeição, em qualquer situação, é eminentemente social e frequentemente afetiva.

A rejeição diz-nos de alguma forma, que não somos válidos e/ou não somos aceites e/ou não desejados e/ou não amados.

A rejeição fundamentada nas competências ligadas à razão, não põe tanto em causa a essência do Eu – como faz a rejeição mais ligada aos afetos.

As rejeições ligadas à cor da pele, à cultura, à sexualidade, à personalidade ou à afetividade, são mais dirigidas à própria identidade do que as que podem acontecer por motivos de produtividade laboral, por exemplo (embora hoje seja comum trocar a identidade pela produtividade/profissão).

A rejeição afetiva é frequentemente vivida com grande sofrimento e muitas vezes dá origem a sentimentos de culpabilidade e eventualmente de auto-rejeição. Tal é mais provável acontecer nas pessoas que realmente são capazes de amar.

Quando a rejeição acontece nas situações que mais estão ligadas à nossa identidade, quer ontogénica quer filogenética, esta dá origem a vários sentimentos: desde o de raiva ao de grave depressão. Esta acontece pelo abandono e consequente sentimento de solidão que se torna ainda maior quando a pessoa tende a generalizar a rejeição e acreditar que é ou será desde então, rejeitada por todos. Esta tendência é, evidentemente, mais provável quando a rejeição (afetivamente significativa) se repete na história pessoal.

Naqueles casos em que a rejeição se alicerça na “diferença” (seja de ordem cultural, étnica ou sexual, p.ex) a tendência defensiva de tais pessoas é reforçarem os seus laços afetivos, estabelecer maior coesão interpessoal no grupo identitário (e fora dele) e até organizar movimentos que de alguma forma se oponham à rejeição e que lhes devolvem a auto-estima.

Na rejeição fundamentalmente afetiva, a solidão faz-se sentir de forma especial e tem menos defesas. Tal rejeição é muito diferente da perda que a morte de uma pessoa amada impõe, p. ex.. Na situação de perda, a pessoa tende a reforçar os laços afetivos com os que ficaram de forma a obter alguma compensação e estabelecer um novo equilíbrio emocional possível. A perda a que nos referimos é antropologicamente normal e o sofrimento vem justamente da nossa capacidade de consciência da finitude.

Na rejeição, forma-se no rejeitado a ideia de que o abandono é intencional, não significa perda, significa não querer, uma atitude ativa, portanto. Como é fácil de entender, qualquer rejeição que aconteça numa pessoa em vivência de perda, leva-a a uma estado limite de sofrimento. Está aqui em causa a própria definição da espécie humana como socialmente profunda.

Importa, portanto, aprender a sobreviver. Por um lado, não deixando que a auto-estima seja abalada pela rejeição e por outro lado, minimizando os estragos que a rejeição produziu.

Existe uma tendência para a pessoa rejeitada deixar de investir nos outros em termos afetivos, por medo de novo sofrimento. A história da Humanidade está repleta de gente que, não amada e rejeitada, se superou através de movimentos extraordinários (sobretudo visível na criatividade artística mas também na produtividade laboral). Contudo, um esforço no sentido oposto é importante. Vale a pena procurar quem saiba amar!

Uma das formas que pode bem minimizar os estragos feitos pelo abandono é a consciência de que a rejeição nunca é totalmente relacionada com a pessoa rejeitada e, muito mais provavelmente, diz respeito ao que rejeita.

Na verdade, vivemos tempos em que a vinculação não é facilitada. Todas as espécies estabelecem com os outros “seus” elementos algum vínculo superior ao que estabelecem perante elementos de espécies diferentes.

Na espécie humana, também depende do vínculo a capacidade de consentir o outro. Um Homem pode sentir tanto pelo, com e em vez do outro que pode por em causa a sua própria existência. Tal capacidade de vinculação e empatia profunda faz com que a nossa espécie esteja particularmente apta a fazer amor.

Por outro lado, quando não se cria no indíviduo precocemente um bom vínculo a capacidade de consentir (sentir com) o outro é precária e o amor pouco provável.

Muitas vezes, o que rejeita não foi precocemente investido de amor e por isso a sua capacidade de viver em amor é menor, como é menor o sentir com o outro a rejeição. Amar é viver com e para o outro, é viver a alteridade e a identidade simultaneamente.

As pessoas hoje, desejam mais do que amam, precisamente  porque não são capazes de amar, porque não tiveram amor.

Como pode um Homem de uma tribo primitiva algures na linha do Equador saber o que é, como se sente, a que sabe, o gelo?

Tais pessoas pensam que desejar é amar, mas desejar é consumir, é domesticar. E as pessoas hoje desejam mais do que amam.

Hoje tende-se a designar por “fazer amor” a uma experiencia afetivo-sexual exploratória e superficial.

Assim, todos os que sentiram a rejeição devem por a hipótese de tal ter sido provocado por quem não consente o amor e não por culpa pessoal. Por outro lado é importante acreditar que existem pessoas muito capazes de realmente amar.

Nunca desista da Humanidade, do Vinculo! Nunca é tarde!

 

António Sampaio
Psiquiatra

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