Mas afinal de que é feita uma doença mental?

Há quem continue a negar as doenças mentais só porque estas podem não ser causadas diretamente por uma lesão bem localizada no cérebro. Mas será correcto que a aceitação da existência das perturbações psiquiátricas, tão próximas da condição humana e sua subjectividade, depende unicamente de provar a sua natureza biológica?

Muitos autores criticam a forma simplista e que não reflete a complexidade interactiva que existe na doença mental entre um mundo mais material dos neurónios e um mundo mais subjectivo não materializável, dos significados.

A euforia da eficácia dos medicamentos psiquiátricos na ultima metade do século XX (eficácia inegável!), e dos avanços das neurociências, estimularam uma urgência em alcançar segundo modelos simples de causalidade, aplicáveis algumas áreas da medicina, as bases neurobiológicas das doenças mentais. Descuidaram se assim as especificidades desta área e que devem incluir conhecimentos de áreas afins como a sociologia, a psicologia, a filosofia.

Num paciente com uma depressão reactiva por exemplo a problemas conjugais, para compreendermos a génese desta situação e planearmos o seu tratamento temos de aceder ao mundo dos significados do individuo (o que provocou o problema conjugal, quais as suas vulnerabilidades que possivelmente se associam a experiências passadas e que podem ser determinantes na forma como se manifestam os sintomas), e também de possíveis ocorrências que tenham lugar no domínio dos seus neurónios e neurotransmissores (que podem basear e perpetuar os sintomas). Para percebermos o que exactamente se passa no cérebro do paciente, temos de antes dissecar aquilo que pertence ao subjectivo, ao mundo dos significados (do paciente e colectivos, da sociedade) e que pode contaminar a forma como o paciente apresenta os seus sintomas.

 

Diogo Telles Correia, Médico Psiquiatra, Professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa

 

 

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