Pós-Modernidade e Saúde Mental

A Organização Mundial da Saúde, diz que a saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. Assim, a saúde mental não é apenas a ausência de doença mental. É definida pela O.M.S. como: “um estado de bem-estar no qual cada indivíduo consegue aperceber-se do seu próprio potencial, consegue lidar com o stress normal da vida quotidiana, consegue trabalhar de forma produtiva e ter sucesso e ainda é capaz de dar a sua contribuição à sua comunidade”.

Ora, como se percebe, tal definição está muito relacionada com o contexto sociocultural em que a pessoa se encontra.

Importa portanto, para todos os que se preocupam com o sofrimento mental, ter um conhecimento sobre a natureza do Homem e sobre as sociedades, enquanto organizações comunitárias com valores e normas próprias. Tais valores vão condicionar os conceitos de doença e saúde mental.

Por isso, parece importante refletir sobre os tempos em que vivemos a que alguns chamam de “Pós-Modernidade” (Jean-François Lyotard) e outros de “Modernidade Líquida” (Zygmund Bauman).

A Modernidade fez uma enorme tentativa de pôr a racionalidade ao serviço do Homem. A explicação dos fenómenos naturais que a herança científica (Galileu, Newton,…) recente permitiu, levou o Homem a uma situação de poder e centro do fundamental do Universo.

A Modernidade apelava:

– Ao fim do sagrado;

– A um mundo explicado (pelo primado da razão e da ciência);

– A uma emancipação do Homem;

– A um desenvolvimento da tecnologia.

Evidentemente que a corrente emancipatória já vinha da revolução francesa, mas foi muito potenciada pela nova organização social dos Estados-nação pós I Grande Guerra, que introduziu conceitos como o de cidadania.

(O Estado-nação consistia, então, em uma entidade política e geopolítica e uma entidade étnica e cultural, e afirmava-se por um governo soberano, por uma estrutura jurídica, por uma história, por definição de fronteiras e pela existência de moeda própria).

É nessa altura que surgem os ideais comunitários que deverão levar, idealmente, ao bem-estar do Homem que se deve sujeitar apenas às leis oriundas de uma ética e política racionalista. Surge um ideal “Iluminista” de progresso. “Saber é poder” é um paradigma fundamental das sociedades modernas. A Modernidade é um sistema social muito marcado pela lógica de determinismo científico se pela existência de fronteiras.

Apesar do impulso emancipatório que a razão proporcionou, na Modernidade existiam marcadamente fronteiras em relação a vários aspetos da vida social incluindo a classe, a profissão, a maneira de estar, a orientação sexual, etc.

Na Modernidade, o espaço e o tempo são uma realidade no enquadramento social monitorizado e disciplinado.

A Pós-modernidade afirma-se sobretudo após a década de 80 e muda os paradigmas da modernidade.

Para alguns, a queda da supremacia da ciência inicia-se já em 1945 após a explosão da bomba atómica (fruto da ciência).

À desilusão do Homem perante a ciência, segue-se a desilusão das grandes modelos de sociedade. A certa altura o homem deixa de ser capaz de idealizar uma “linha condutora” comunitária que, baseada na história, possa prever uma evolução para um futuro. A imprevisibilidade, a incerteza e o imperativo do presente, constituem, agora, as bases epistemológicas sociais e individuais.

O primado da ciência é rapidamente substituído pelo primado da tecnologia e as pessoas vêem-se inundadas por um plêiade de informações que não compreendem inteiramente mas que as seduzem pelo “brilho”.

A Pós-modernidade vem pôr em causa:

– O valor da ciência;

– A racionalidade, por esta ser “bipolar” (sim ou não; verdadeiro ou falso);

– As fronteiras (geo-políticas, do conhecimento, da ética..)

A Pós-modernidade surge, então, pela globalização da modernidade e por uma nova dimensão do espaço e do tempo. Tais condições epistemológicas levam a uma mais difícil identidade e sensação de pertença comunitária. O “sólido” é um conceito ultrapassado e passa a imperar a “liquidez” quer na situação económico-social, quer no que se refere às relações pessoais.

A sociedade pós-moderna pode, então ser caracterizada por:

– Perda de um determinismo individual relacionado com a própria identidade. O Homem tem de ser mais plural e ser portanto mais “fluido”;

– A evolução progressiva e linear (e de alguma maneira, a previsibilidade) da história deixa de acontecer. Tal situação remete para a ênfase no presente;

– O tempo é fundamentalmente o instantâneo e o espaço entre “territórios” é ligado á velocidade da luz;

– A emoção toma prioridade em relação à missão.

(Jemeson e Bauman)

Após o desmoronar das ideologias que se afiguravam, na Modernidade, como alternativas comunitárias, vai-se erguendo uma cultura que defende a igualdade de oportunidades, de direitos e de acesso à saúde, mas exige-se uma igualdade de resultados à escala global. Existe a partir de então, uma nítida contradição entre os valores apregoados de produtividade e de igualdade, que são medidas e avaliadas por médias de sucesso e que orientam as medidas políticas viradas exclusivamente para as maiorias e para a promoção do mais produtivo economicamente.

A globalização levou a uma imposição de novos valores e simbologias servindo o capitalismo “informacional” que faz tudo o que lhe é possível para impor as suas próprias condições de trabalho apenas baseado no lucro sob a “bandeira” da informação (Cardoso, G.; Costa, A.F.; Coelho, A.R.; Pereira, 2015). A lógica da produção passa por realidades como a instantaneidade e descartabilidade (Harvey, 1992).

Enquanto os poderosos o são pela não territorialidade e pelo não durável, os mais desfavorecidos tentam desesperadamente o pouco provável ideal de fazer durar e tornar “sólidas” as suas parcas economias.

Na sociedade atual o homem troca a identidade pela produtividade. À pergunta: “Como estás?”, responde: “Estou mal, estou desempregado!” ou “Estou bem, arranjei emprego numa multinacional”. À pergunta: “Como estão os filhos?” responde “ O mais velho está em medicina e a miúda em direito…” .

É neste contexto que a definição de saúde mental da OMS refere a “produtividade” como se não fosse possível ser saudável mesmo sem produtividade, tal como esta é concebida nas atuais sociedades, onde os ideais políticos estão cada vez mais diluídos em interesses económicos.

Com a promoção do presente, surge o imperativo de se fruir ao máximo da vida, aqui e agora, e cria-se a ilusão de um auto-conhecimento e de auto-realização em detrimento de uma consciência coletiva. A coesão social declina por excesso de informação e de animações “à la carte”.

É neste contexto que se criam solidões e desadaptações que levam depois a diagnósticos e se apela às medidas terapêuticas “psi”. Dessa maneira, “chuta-se” para a o território da doença o desadaptado e o que sofre pela incapacidade de adesão a uma sociedade sem espaço, sem tempo, sem coesão social e onde realmente é muito pouco provável a realização pessoal. Tal situação teria de ser oriunda de um real autoconhecimento que, a acontecer, surge frequentemente demasiado tarde, lá onde a aposta social já não é feita.

Nas sociedades pós-modernas cresce assustadoramente a percentagem de pessoas em situação de solidão e com sintomatologia depressiva.

Nas sociedades mais “desenvolvidas” os problemas relacionados com doença mental e perturbações psiquiátricas tornaram-se as principais causas de morbilidade e incapacidade, como mostram os estudos dos últimos 15 anos. Ainda que em todo o mundo as perturbações mentais sejam responsáveis por cerca de 31% dos anos vividos com incapacidade (DALYS), na Europa os valores atingem os 40%. Acresce que as previsões apontam para um aumento das perturbações mentais nos próximos anos. (Caldas de Almeida, 2007)

Em Portugal, o último estudo publicado aponta para uma prevalência total das perturbações mentais de 22,9% – maior taxa registada na UE – com destaque para as perturbações da ansiedade e depressivas (DGS, Carvalho, 2014).

A O.M.S. refere que a depressão tem vindo a aumentar e estima que continue a aumentar em prevalência, passando do terceiro diagnóstico mais frequente a nível Mundial em 2004 para o primeiro em 2030, seguida dos diagnósticos de doença isquémica coronária, acidentes rodoviários e doença pulmonar crónica obstrutiva (Christodoulou, 2012).

A depressão é na realidade uma perturbação psiquiátrica muito comum nas sociedades atuais ditas “desenvolvidas”, sendo que no último estudo realizado em Portugal com âmbito nacional, a prevalência anual para todas as perturbações do humor é de 7.9%. Tal estudo diz-nos que, em relação a todas as “perturbações depressivas”, Portugal é o segundo país europeu com maior prevalência, só sendo ultrapassado pela da França (8.5%) (DGS, 2014).

Os critérios de diagnóstico de doença incluem constantemente a condição de: Os sintomas causarem “prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”. (APA, 2013). Então quer os manuais de diagnóstico atuais, quer a OMS, associam a saúde mental ao funcionamento do indivíduo social e/ou ocupacional.

Evidentemente que a saúde mental tem de contemplar o funcionamento social na medida em que o próprio Homem é definido como um ser com “mente social profunda” (Whiten,A 2006).

Contudo, na pós-modernidade, as relações sociais são muito precárias e realmente não é incentivado o verdadeiro “funcionamento social”. Antes imperam os relacionamentos virtuais ou muito superficiais.

Por outro lado, parece que temos de trabalhar de forma produtiva para nos ser dada a condição de saudáveis.

De facto, ao abordar os conceitos de saúde e de doença mental, é importante refletir sobre o nosso entendimento sobre a própria condição antropológica do Homem e da sociedade, que envolve a cada momento crenças e valores não universais e não intemporais.

 

António Sampaio

Psiquiatra

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